O Caminho do Conhecimento e a Identidade
"Eu vivia em dois mundos: o mundo árabe-islâmico dentro de casa e a sociedade brasileira da porta para fora. Transitávamos bem entre esses mundos, mas havia uma sensação inusitada de nunca pertencer totalmente a lugar nenhum."
Durante a minha juventude, eu carregava comigo muitos questionamentos. Eu observava as diferenças entre o meu cotidiano e o dos meus amigos: por que eles podiam namorar e eu não? Por que a forma de rezar envolvia movimentos específicos? Meus pais tentavam saciar essa curiosidade, mas as respostas encontravam um limite no nível de conhecimento religioso que eles possuíam na época. Eu sentia que precisava de mais profundidade.
Em fevereiro de 1981, participei do primeiro congresso internacional de muçulmanos da América Latina e do Caribe. Eu estava ali, em meio a diversas autoridades religiosas, sem entender quase nada do que era dito, mas movido pelo desejo genuíno de conhecer minha religião. Foi quando um senhor saudita, percebendo meu interesse e o fato de eu ser um dos poucos jovens presentes e atentos no auditório, me perguntou se eu aceitaria estudar em uma universidade na Arábia Saudita.
Sem hesitar, e com o apoio imediato do meu pai, aceitei o desafio. Minha ida para o exterior não foi motivada pela pretensão de me tornar um Sheikh, mas sim pela necessidade de entender os meus próprios questionamentos. Eu vivia em dois mundos: o mundo árabe-islâmico dentro de casa e a sociedade brasileira da porta para fora. Transitávamos bem entre esses mundos, mas havia uma sensação inusitada de nunca pertencer totalmente a lugar nenhum; no Brasil eu era o "árabe", e no Líbano eu era o "brasileiro".
Embora eu tenha nascido em um berço islâmico, considero que minha convicção real na religião veio aos 16 anos. Foi nesse momento que ela fez sentido para mim e as respostas que eu buscava finalmente vieram. Compreendi que o sentido da vida, através do Islã, não é baseado em emoção, mas sim no conhecimento. No Islã, não seguimos algo apenas por ser bonito, mas porque faz sentido lógico.
Dessa trajetória, extraí lições fundamentais sobre a busca pela verdade. Aprendi que, para conhecer qualquer crença, devemos ir direto à fonte: se quero saber sobre o Cristianismo, procuro um padre ou teólogo cristão; se quero saber sobre o Judaísmo, procuro um rabino. O mesmo vale para o Islã; deve-se buscar quem realmente estudou e entende as fontes.
Percebi também que existe uma construção narrativa externa que tenta associar o muçulmano ao terrorismo. Isso atinge diretamente a minha identidade, minha ancestralidade e minha herança. Por isso, encaro meu trabalho hoje não como uma profissão remunerada, mas como uma missão de vida. Acredito que todas as pessoas, muçulmanas ou não, merecem conhecer a verdade e ter acesso ao saber do "outro lado" de forma autêntica.